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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pedalar devagar

..é o nome de um livro que tinha emprestado a uns amigos há tempos. 
Numa recente visita trouxe-o para casa e estou a rele-lo!

A capa

É a história de um casal luso-suíço que se propõe a viajar pela Ásia durante 4 anos de bicicleta!! A narrativa vai alternando: 1 capítulo é narrado pela Valérie, outro pelo João, mas sempre com sequência temporal e espacial. Original no mínimo. 

O que dizer deste livro: confesso que podiam ser mais cuidadosos com o detalhe. Por vezes parece estarmos a ler um telegrama, mas a aventura é tão espectacular, tão imensa, tão TÃO, que se perdoa. Desde o desviador que se parte no meio da terra de ninguém, ao frio que apanham no norte da China, ao percurso pela estrada proibida até ao Nepal, ao desencontro causado por um desentendimento até à mudança de câmara de ar na rua com direito a plateia, o atravessar a Rússia com apenas um visto para S. Petersburgo, desmascararem um "mexilhão" de câmara fotográfica na Índia, isto tudo é imperdível. (Mais uma razão para a minha crítica...com mais detalhe e enquadramento mais tempo ficaria imerso na aventura).

O João e a Valérie apostam no "old is cool", em usar material simples e prático, menos susceptível a causar impacto e vão-se safando com muita interação com os locais, vivendo ao máximo o que uma viagem tem a oferecer. 

Outro "must" para as leituras de viagem!


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Dormir numa tenda suspensa!!

Dormir bem sempre foi um problema para mim. Em miúdo era dos poucos que não dormiam a sesta, tenho com alguma frequência insónias e fico derreadíssimo se durmo mal! Isto concerteza que não vos interessa, mas interessa para o assunto que vou explorar: o dormir no mato!

Ora se não costumo dormir bem, e fico derreado qdo isso acontece, é uma aposta pessoal descobrir a melhor forma de o fazer em viagem.

Em cicloturismo em autonomia com o Gugas aposto numa tenda pop-up ou instantânea como a chamam no site da Decathlon. Acho que para o preço é extremamente bem construída (comprei das primeiras versões e custou-me cerca de 25€) e o trabalho que poupo em montar a tenda vale o volume extra. 

A tenda pop-up num parque de campismo

Fechada na bicla, como é uma xtracycle dá na boa.

Ora esta opção não o é para muitos...quem usa uma bicla normal não tem grande possibilidade de transportar este volume todo. Antes de ter a xtracycle e também para caminhadas em autonomia eu uso uma Lichfield para 2 com zona de arrumos. Não a encontro na net, mas é o equivalente a esta.

É relativamente leve, um pouco volumosa mas nada de especial, mas é um pouco morosa a montar pois obriga a que se enfie as hastes em tubos de tecido. Pesa cerca de 3 Kgs, o mesmo que a pop-up.

A Lichfield é a tenda azul atrás do Hernani. 
A verdinha era leve e pequena...mas metia água!


As mais recentes já não são tão chatas de montar, e há tendas ultralight muito fixes. (e para todos os preços). 

Atenção!! Faço cicloturismo com o Gugas, normalmente com bom tempo...ao optar por uma tenda que dê para todo o ano há que puxar um pouco mais a bitola. Aí vale a pena apostar numa tenda melhor.


Agora para o bikepacking, em que o peso e volume conta sobremaneira decidi apostar por algo que venho a piscar o olho faz tempo: o Hammock, ou cama suspensa!

Não falo daquelas camas de rede brasileiras que usamos para dormir a sesta, mas sim camas suspensas feitas de material semelhante ao das tendas, complementado por outro tecido que cubra a cama.

O teste do algodão.

A cama suspensa é utilizada praticamente em todo o mundo especialmente por tribos, e os norte-americanos são grandes adeptos destas versões mais sofisticadas e apetrechadas. Como tudo, há-os em todos os formatos e feitios, e preços claro está.

A primeira grande vantagem está na ausência de ferros ou estacas, o que significa menos peso. 

Os 2 sacos verdes são respectivamente 
a cama suspensa (hammock) e o duplo tecto (tarp)


E este hammock que estou a testar é bem grande, e o que dizer do duplo tecto! (4x4m). Comprando um hammock mais pequeno e leve, e substituindo o duplo tecto por um mais pequeno ou mesmo um bom poncho (que duplica como impermeável) fica tudo mais leve e compacto.  A DD (marca inglesa que testei, pois um amigo meu é representante da marca tem um conjunto de hammock, duplo tecto e rede mosquiteira ultralight...é um mimo para caminhadas e bikepacking.

A primeira grande desvantagem está na necessidade de 2 pontos de apoio. Se bem que há versões que se podem montar como tenda, e até quem arranje forma de arranjar um segundo ponto de apoio caso este não exista.

Sem árvore? Sem problema!

No fundo, esta desvantagem só vai permitir que o McGyver que está adormecido dentro de vós saia cá para fora!

Depois vem o conforto/frio:

Numa tenda, o fundo está em contacto com o chão. Para além da preocupação extra de procurar um local seco, com poucas pedras, sem picos e afins, há que prever a transferência de frio e humidade do chão para o interior da tenda. Ora, é por causa disso que se usam os colchões ou "matelás" (ups...não é só para não ficar com as costas todas partidas!!!). Os matelás não são conhecidos por serem pequenos ou pouco volumosos, um problema no que concerne o transporte nas costas ou bicicleta. E como o melhor isolante é o ar, os colhões insufláveis (e auto-insufláveis) são os melhores...tb são os mais volumosos, pesados e caros. A thermarest tem o NeoAir que parece ser o suprasumo dos matelas...mas ainda é caro.


Divirtam-se enquanto aprendem com o 
"Happy camper" sobre conforto em campo.


Já a tenda suspensa não tem este problema de condução de frio do solo, visto não estar em contacto com o mesmo, MAS...o ar que circula por baixo de nós também é frio e arrefece mesmo. A solução? Montar o hammock bem perto do chão mas sem tocar nele é uma das soluções, apesar de não ser prático para entrar e sair!! A outra é colocar um matelá fino por baixo de nós. Eu usei um refletor dos que se põem no pára-brisas dos carros para reflectir o sol...leve e este foi grátis. O melhor é que funcionou na perfeição!

O reflector para colocar nos pára-brisas


 Colocado no fundo duplo do hammock

Em situações extremas, quem acampa com tendas suspensas costuma ou colocar o saco-cama a cobrir homem/tenda ou usam um underquilt (sub-saia??), ou seja um mini saco-cama que retêm o ar quente perto da cama suspensa.

Agora que já não temos frio numa tenda suspensa falta a questão do conforto das costas!!! 

A cama de rede para dormir a sesta é do melhor, mas quando se dorme uma noite inteira, há a probabilidade de ficar com os pés dormentes, as costas partidas e os ombros doridos!! Mas isso acontece quando somos AMADORES. 

Os profissionais do "hammocking" explicam-nos como dormir num sem ficar todo partido.


4 dicas para passar uma bela noite numa tenda suspensa.


A montagem do hammock faz diferença, o facto de dormir na diagonal, a altura dos pés, etc., tudo tem influência. Eu experimentei dormir desta forma e passei uma bela noite. Mas não há nada como experimentar...há quem não consiga pura e simplesmente dormir num hammock!

O que me pareceu mais difícil em relação a uma tenda é a cena de taparmos e destaparmos o saco-cama. E a coisa não melhorava se eu fosse daqueles que se levantam para fazer xixi!! Se calhar um saco-cama com fecho à frente e com a parte dos pés impermeável não fosse má ideia!

Para saber mais sobre hammocks aconselho o "the ultimate hang", uma verdadeira bíblia sobre tendas suspensas e ainda por cima com excelentes desenhos.

A DD hammocks é representada em Portugal pela Loja do Mato, falem com o Luís que serão bem atendidos (não tenho comissão).

Eu usei o DD frontline que pesa cerca de 1Kg, mas possivelmente vou apostar num Scout ou no camping para mim! Gostei e recomendo. Em campismo com família e até em casa uso-o para dormir a sesta ;o) 



sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"You've gone too far this time, sir"


Este livro li-o em versão ebook no meu Kindle. Mais um livro que nos prende e não nos larga enquanto não o lemos na integra. Devorei-o e sempre que parava de ler fica vaem "pulgas" para ter um tempinho para voltar a agarrá-lo. E este é o melhor elogio que se pode dar a um livro. 

O livro relata a viagem de Danny Bent, um professor de Geografia (um padrão engraçado pois há muitos professores a viajar. Talvez porque em Inglaterra é uma profissão não tão sujeita a concursos e colocações como cá.) inglês desde a sua terra à Índia. A viagem é feita com o intuito de angariar fundos para uma escola indiana e porque Danny prometeu aos seus alunos que iria lá pessoalmente. 

A primeira nota de interesse foi quando Danny pensou no veículo a utilizar para se deslocar até à Índia e não teve coragem de dizer aos seus alunos que iria de avião após ensinar-lhes que era o meio de transporte menos ecológico que existia! Lindo! Aliás, o título do livro é uma frase que lhe foi dita por uma aluna. É um espectáculo quando a plateia é composta por crianças!! E foi por elas que ele foi até à índia e foi por causa delas que ele não desiste da viagem enquanto está ainda na Ucrânia e perante muita poluição, razias de camiões e comportamentos violentos de Ucranianos bêbados. 

Danny não é o gajo mais certinho que existe, também não é o mais organizado nem o mais ponderado, o que para mim aumenta o interesse da história! Gosto de ver acontecer aventura (ou ler neste caso) e o Danny é perito nisso para além de ser extremamente divertido. Basta ver a capa da versão Kindle para vermos que é um gajo porreiro pá (à direita).

Gostei da aventura da primeira noite em campismo selvagem onde lutou a noite toda com sombras e com as maçãs que caiam da macieira "malvada" e que lhe pareciam pedras. Da forma como lidou com o gosto mórbido por alcóol e armas (misturadas) dos ucranianos, das suas peripécias nos "stans" e em especial no Paquistão. A forma como o atravessa, conhece um país muito diferente do que conhecemos, passa por controlos alfandegários, bloqueios de estrada, vilas sem mulheres à vista, assédio sexual por parte de homens machistas, casamentos que são autênticas multidões é no mínimo exuberante. 

Para não falar na sua travessia desse sub-continente que é a Índia. País de contrastes extremos, que vão da sobre-populada Mumbai, às praias cristalinas e techno-raves de Goa, das aldeias pobres aos cultos riquíssimos. Tudo relatado de uma forma espectacular, viciante e até inspiradora. 

Como diz na capa: "Isto acho ser o mais próximo que alguma vez vi de ter encontrado um amigo num livro!" 

Concordo. Leitura obrigatória. 5 estrelas ou mais!










quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Moods of future joys & From thunder to sunshine.

 
Moods of future joys
Alastair Humphrey pedalou pelo mundo de bicla e encantou-me pela forma como o fez e escreveu!

O rapaz, já com algumas aventuras de bicla nas pernas e uma atração inata pela aventura, teve a coragem para largar tudo e fazer uma volta ao mundo. Mas a ideia não era essa. Ele saiu da sua Inglaterra natal em direção ao médio oriente. A sua ideia era pedalar o Karakoram e ir até à India. Daí tentava perceber o que queria e decidiria na altura. Só sabia que não queria pedalar por Africa pois o calor e a incerteza de segurança assustavam-no. Acontece que quando ia a sair da Europa e entrar na Asia via Turquia acontece o 11 de Setembro. Apanha-se numa encruzilhada brutal: com passaporte inglês não se iria aventurar a caminho da Asia pelo caminho programado. Apanharia países como o Iraque, Irão, Afeganistão ou Paquistão que estavam completamente fora de hipótese. Seguir pela Rússia era uma aventura de proporções épicas para o qual não estava preparado. Faltava a opção AFRICA que tinha posto de parte ainda antes de partir. Avisou família e namorada que seguiria por Africa e assim foi. Não se arrependeu e até lhe deu vontade de continuar e acabar por dar a volta ao mundo. (desculpem o spoiler). Esta flexibilidade e espontaneidade, somadas a uma escrita fluida pontuada com humor britânico e reflexões pertinentes fizeram-me ficar agarrado a este volume e sonhar com a continuação. Felizmente existe uma continuação: 
From thunder to sunshine
 
 
Este último relata a viagem após a decisão de seguir em frente já na cidade do Cabo. Conta como atravessou as Americas até ao Alaska pela panamericana, atravessou o estreito de Bering e aventurou-se na Sibéria pela Road of bones, voltou à costa para ir ao Japão, voltar ao continente para a China e aí fazer o percurso pelos “estões” até casa. UFF. Não estão cansados?

Alaistar era professor de Inglês (agora dedica-se a aventuras e a superar-se a si mesmo) e contactava escolas locais para apresentar o seu projeto pelo caminho. Chegou a trabalhar numa no Peru. No segundo volume descobrimos que um dos motivos que o levou a realizar esta viagem foi a de descobrir se era capaz de escrever um livro. Eu e muitos outros dizemos que sim. Muitas vezes sentia-me perto da ação sentido as dificuldades, a felicidade, os cheiros e a cor, chegando a rir-me a gargalhadas despregadas com o relato das suas peripécias. Ele conta como pedalando no Salar de Yuni decidiu divertir-se e começou a pedalar apenas com um gorro, as luvas e sapatos. De resto ia nu rindo dos comentários dos jipes que passavam, até que um decide abordá-lo. Atrapalhado tentou vestir-se depressa, mas não evitou o embaraço. Mas isto não era nada, acontece que semanas mais tarde, no Peru encontrou-se com uma professora primária numa escola onde ia dar uma palestra e descobre que professora era uma das turistas desse jipe! Hilariante, aconselho vivamente.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Azub Bufo - uma reclinada para o dia-a-dia

A primeira vez que vi uma reclinada foi no longínquo ano de 93, num Inter-rail quando passava pelos países baixos. Eram bicicletas estranhas para mim, onde o ciclista ia quase deitado, a pedalar por vezes muito baixo e ainda por cima com guiadores por baixo do selim. Selim que não era selim, mas sim uma autêntica baquet desportiva. As reclinadas ou recumbentes na língua de Shakespeare, eram para mim, o que provavelmente são para muitos, algo freak no mundo das bicicletas, um capricho de alguns ciclistas que não contentes com o design quase perfeito da bicicleta “normal” (o quadro em diamante ou safety bike), queriam algo diferente, sobressair da massa e andar em algo sui géneris.

Foi só no passado ano de 2011 que li um livro sobre estas bicicletas - The Recumbent Bicycle, de Gunnar Fehlau -  e fiquei a aprender que as reclinadas por si só são um mundo!


Bem tentaram colocar uma míuda gira (vá) na capa,
mas o pormenor da meia branca com sandália não ajuda a vender ;o)

O livro relata desde a história das reclinadas, os princípios de física que levaram a esta geometria, a questões de ergonomia, a sua eficácia, a utilização em competição e no dia-a-dia, etc., etc. É muito completo e super interessante. Fiquei a saber, por exemplo, que nas reclinadas o factor aerodinâmico é tão preponderante que é possível acrescentar peso com uma mala em forma de gota ou um vidro e ganhar velocidade ou tempo. Já nas bicicletas quadro de diamante, para ganhar eficácia tens de trabalhar mais no peso (e resistência) dos materiais, o que retirava competitividade a pequenas empresas na competição, acabando por apostar nesta geometria. Estes pequenos produtores importunavam tanto, que a UCI acabou por retirá-los da competição, homologando apenas bicicletas standard. Aliás, em corridas mistas, que acontecem hoje em dia pela Europa e Estados Unidos, as reclinadas têm muito sucesso. Já a posição de condução mais relaxada permite andar mais com menos esforço e menos cansaço, nomeadamente nos punhos, pescoço e costas. E a quantidade de bicicletas e triciclos diferentes que existem? Desde altos, a baixos, com roda à frente da pedaleira, outras atrás, com duas rodas à frente ou duas atrás no caso dos triciclos. Há para todos os gostos e feitios, que o diga o Bruno Botelho, que tem um excelente post na língua de camões sobre as reclinadas.

Até onde podem chegar as reclinadas!

Toda esta informação começou a inquietar-me e decidi que tinha que experimentar uma. Foi quando vi uma AZUBBufo na Cenas a Pedal e decidi alugá-la para um drive-test à minha maneira. Para começar, esta reclinada vinda da Republica Checa é LINDA.

Bandeiras ao alto!
Muito bem feita, é composta por um tubo único de onde deriva o eixo traseiro a partir de metade, e em cujas extremidades saiem o suporte de bagagem e o eixo pedaleiro. Isto permite adaptar a bicla a ciclistas de várias estaturas (de 1,5m até 2m segundo o site). O banco também é adaptável em dois pontos permitindo afastá-lo mais ou menos dos pedais, assim como levantar ou baixar mais o banco. Vem com rodas de 20”, para melhorar a agilidade em cidade e os arranques, e um guiador do tipo “hamster”. Outro capítulo em que as reclinadas são mestres em leques de opções é no guiador: “à super-homem”, “tipo hamster” ou por “baixo do assento”, são as que me lembro assim de repente.
O IPS - ou Ideal Position System...

...significa que é possível escolher
entre milhentas combinações.

Peguei na bicla, sentei-me e tentei pedalar. É como aprender de novo a andar. Para já convém termos uma mudança baixa e começarmos numa zona calma. Lá estava eu no Rato, uma via a subir e extremamente concorrida! Mas vá. Dei uma, duas pedaladas e depois de encarreirar dá para continuar. Cada pedalada obrigava o corpo a contrabalançar o que resultava num ziguezaguear irritante. O facto da Bufo ser uma SWB (Short wheelbase, ou seja tem a roda da frente entre o assento e o eixo pedaleiro) e ainda por cima ter a direção direta direta à roda, quer dizer que é extremamente nervosa.

A posição da roda da frente.

Cheguei à rotunda da Estrela e subi até parar no semáforo. Estava cansado dos braços por causa do guiador tipo hamster. Andava com os braços como um T-REX, o que é cansativo, mas tinha a vantagem de ser bastante semelhante a um guiador standard (acreditem, quando se começa a pedalar numa reclinada em que tudo é diferente, qualquer semelhança com as biclas a que estamos habituados desde míudos é uma tábua de salvação). E tinha outro problema para mim. O guiador rebate para que se possa sentar sem obstáculos. Isto quer dizer que não podemos utilizar o guiador da mesma forma que noutra bicla, ou seja para empurrar quando não pedalamos, etc. e a força do hábito é tramada.
O pormenor das mãos à T-REX!

Assim lembrava-me que o guiador não é fixo!

A primeira reação que tive no semáforo, enquanto descansava e tentava conter toda a alegria misturada com nervosismo de estar a experimentar um brinquedo novo, foi de ser alvo dos olhares de toda a gente. Uma reclinada não é aconselhável a tímidos. Eu que estou habituado a que estranhem a xtra e façam perguntas já me estava a sentir incomodado. Do semáforo segui para a Infante Santo: aquela mega descida foi surpreendentemente divertida com a azub obstante a roda ser nervosa, o guiador cansativo e eu estar demasiado deitado para o meu gosto. As “bocas” começavam a ser refinadas: “ó alentejano”, “assim também eu”, “deitado é que é”, etc. (como se andar deitado me livrasse de pedalar!).
Alentejano?

Chegado a Alcântara decidi apanhar o comboio. Uma bicla para o dia-a-dia que se preze tem de ser compatível com os transportes públicos. O tamanho das reclinadas é, regra geral, superior às restantes, mas esta é uma SWB e tem rodas de 20’’. Resulta numa reclinada compacta, ligeiramente mais comprida que uma roda 26’’ “normal”. Duas coisas que temos que ter em conta: não existe um guiador alto e fixo para agarrar a bicla (o tal problema em que resolvi colocando uma serrilha de plástico para me lembrar que o guiador não era fixo). O ponto mais alto é o assento (a parte onde se pode colocar um acessório útil que é um suporte para o pescoço) e é aí que devemos agarrar. A segunda coisa é que ao rodarmos a roda, a frente não roda e é uma roda dentada ou um pedal. Muitos sustos preguei eu a outros utilizadores dos transportes públicos.

A Bufo nos transportes

Compatível, tal como uma bicla não reclinada.

Enquanto esperava pelo comboio admirava a bicicleta, da cor da areia. Esta vinha equipada com um suporte de bagagem e uma mala de generosas proporções e uma bandeirinha que ajudava a que nos vissem melhor. Tentei colocar o banco menos deitado e não tarda estava sentado tal e qual num carro e até o guiador cansava menos nos punhos. De salientar o conforto do banco, o conforto da posição que, não sendo tão alto como na outra bicla que tenho, permite visualizar perfeitamente bem o que nos rodeia. Aliás, estava à altura da maior parte dos condutores de carro. Olhar para trás é mais problemático, mas resolve-se com um pequeno espelho.

O espelho resolve o problema da dificuldade em olhar para trás.

Os pescadores ficaram a olhar para a ginga e pó "gajo que vai deitado".
(esta foto vendia melhor que a míuda da capa do livro não acham?)

O próximo desafio seria uma subida de respeito. Até casa tenho que palmilhar 2 kms de subidas que até se fez bem de reclinada. Segundo os ergonomistas, utilizamos os maiores músculos da perna nesta configuração, para além de que cada pedalada era apoiada nas costas pelo banco. Foi esta a razão principal para o invento da reclinada, seguida pelo conforto. Eu acrescentava a diversão: à medida que ia ganhando o jeito, mais divertido se tornava. E em linha recta ou descida notava-se o papel da aerodinâmica: era fácil esgotar as mudanças mais altas. Conseguia fazer médias superiores à bicicleta normal na Av. da Índia.

Num estacionamento em "U"
Recomendo vivamente que experimentem uma reclinada. Muita gente utiliza este tipo de bicicleta para desporto, pela sua eficácia, chegando mesmo a cobrir com uma pequena carenagem e bater recordes de velocidade. Outros tantos utilizam-na para viajar pois o conforto e a eficácia permitem que se circule mais com menos esforço.

Uma AZUB Bufo em viagem
outro modelo, sempre muita capacidade de carga e conforto!
No quotidiano é mais difícil encontrar afoitos desta geometria mas existem alguns. Esta bufo é uma proposta do construtor checo para esta realidade, oferecendo rodas mais ágeis e melhores para arranques nos semáforos, para além de acessórios úteis e robustos para o abuso diário.

Só falta a gravata...

A apontar o guiador, que substituído por um por baixo do assento deve ser muito mais confortável, apesar de me parecer mais frágil em caso de queda. Um assento em rede é capaz de ganhar pontos nos dias quentes onde uma maior ventilação é bem-vinda.
Experimentem e digam algo. (cuidado com o que põem nos bolsos) (não me perguntem como sei que a probabilidade de tudo o que tiverem nos bolsos cair é elevada). Fiquei tão fâ que estou a pensar em construir uma, mas de tração frontal, que me parece mais eficaz e mais fácil de construir!

Linda, não é?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

The hungry cyclist


Categoria:  Livro
Título: The hungry cyclist
Autor: Tom Kevill-Davies


Veredicto: Tom Kevill-Davies é um dos meus heróis vivos!
Isto porquê? Porque conseguiu juntar 2 mundos que a mim são muito queridos: Viajar de bicicleta e COMER BEM!
As duas coisas não têm de estar de costas viradas! Muita gente pensa que só porque se está a viajar em autonomia ou simplesmente porque pedalar com estômago cheio é difícil, que se tem de comer mal em viagem! Nada mais errado. Eu gosto de comer simples ao almoço, mas depois vingar-me no jantar. Ou faço algo mais substancial e elaborado ou janto alguma delicatessen local.
Mas, perguntam-me vocês, o que este rapaz fez para se classificar “herói vivo” na meu parco portfolio de culto de personalidades? Foi pedalar a américa (norte, central e sul) à procura da refeição perfeita. QUE DOMÍNIO! Ele até colocou um cartaz na traseira da bicla a dizer isso.
  O plano (mal traçado) que não se veio a cumprir na integra.

Não sei se estão a imaginar o que esta mensagem fez mexer no orgulho de tantos cozinheiros e cozinheiras por essa américa fora. Cada um queria provar-lhe que a sua era a melhor refeição que ele ia encontrar! O homem é um génio. Ele fez milhares de kilómetros e conseguiu engordar! ;o)
Brincadeiras à parte, Tom escreve bem, é simples, foca-se em pequenas particularidades que para mim são interessantes, nomeadamente as relacionadas com a comida. É um gajo  pouco dado a grandes planos o que é interessante e parece saber viver o momento. Só para começar foi para NY para casa de uns amigos e contava partir de forma a não apanhar o inverno enquanto passava as rocky mountains. Ficou quase um mês na farra na cidade que não dorme e – pimba – apanhou exatamente aquilo que tentou evitar. Mas comeu uma refeição típica de Porto Rico à saída de NY, foi a umas festas em honra do Peru numa cidadezinha redneck, comeu salmão com índios nas Rocky mountains, provou os picnics de "traseira de pickup" (tailgate picnic) antes dos jogos de futebol americano e ostras do pacífico. Atravessou o mar de cortéz para se deliciar com a comida de rua do México, muito dada a cores e a órgãos internos.
hum...


...porquinho da índia!


Passou-se com a Colômbia e comeu porquinho da Índia no Peru. Meteu-se num barco e desceu o Amazonas onde comeu peixe do rio, e pela costa do Brasil abaixo onde saboreou armadillo, as delícias de Salvador e acabou com uma caipirinha nos queixos no Rio de Janeiro. Digam lá que o rapaz não sabe o que faz?
 Nota-se a barriguinha após 15.000milhas! ;o)


De volta a Londres faz tours gastronómicos num tandem, faz passeios históricos e fez uma viagem ao delta do Mekong. Vou seguindo as suas aventuras no seu site, que tem montes de receitas e fotografias espectaculares mas o seu livro é imperdível. Para devorar de uma ponta à outra! ;o)
Um abraço ao meu compadre que partilha do meu gosto pelas viagens e pela cozinha e que me emprestou este livro fantástico!






terça-feira, 8 de janeiro de 2008

...vítimas da anulação do Dakar...

...são os privados, que viram o seu dinheiro, sonhos e dedicação pelo cano abaixo......



"With the cancellation of this years Dakar I lost personal money (a lot). Would I do it again? (fuck ya) The countless hours I spent designing and building my one off Aprilia rally bike was awesome. The missed soccer games and dance recitals, the sleepless nights and numerous dinners eaten on the floor of my garage were all worth it. They actually brought my family and close friends together. Joining Rally Panam, meeting Jonah, David, Sid, Philip Symons and the rest of the Brit's, Aussies and riding the first stage of last years Dakar with the Portuguese Nomad's motorcycle club was priceless" John Deyckes em ADVRIDER FORUM





It was priceless to see you, and your awsome bike flying over the sands in Comporta, Portugal JOHN!


quinta-feira, 10 de maio de 2007

Viajar de mota

Pelo meu amigo Carlos Cordeiro, viajante de mota que escolheu a Pan European para sua companheira de estrada. Possuí o dom da palavra, e no texto a seguir descreve o que sente a viajar...de mota claro! Um grande abraço.

"Ao viajar com a minha moto, o papel que desempenho é o que a moto me confere, o de motociclista e de viajante. Não outros. Sou, então, na medida em que viajo de moto, sempre que os outros assim o reconhecem.


A minha imagem altera-se, quando viajo de moto. Vestuário, alegria, poeira, bagagem, cansaço, curiosidade, misturam-se de forma exclusiva. A estética de viajante de moto expõe-me, distingue-me, é cartão de visita simples, agradável e seguro.


É da natureza que me aproximo quando, de moto, circundo as falésias durienses, trepo os Alpes ou sulco os diques holandeses. Estou ali, à distância de uma viseira, entre os odores, envolvido pelos sons, a olhar a paisagem. Ao viajar de moto, chego-me ao palpitar da cultura, quando entro em contacto com os aldeãos do Sul de Marrocos, paro para ouvir um cante alentejano, invado habitações trogloditas milenares no Perigod, escuto falar mirandês, troco impressões com “Motards en Colère”.


É liberdade que sinto, quando a moto me faculta ultrapassar os congestionamentos de Bordéus, me dá espaço cativo nos barcos para Tróia, permite lugar de estacionamento nos jardins do Casino do Mónaco ou nos Campos Elíseos, me antecipa portagens, ou fica ali, à minha vista.Quando viajo de moto, a comunicação com outros viajantes de moto é espontânea, a saudação e a troca de informações, imediata; o casal idoso do sidecar BMW incentiva-me a progressão na serra Nevada, o velejador francês da Goldwing convida-me para o bar em Annecy; o alemão da 650 acompanha-me na costa mediterrânea, o casal dinamarquês em Sion confessa-me estar em viagem há dois meses...


Aos locais, fascina o viajante de moto; uma criança marroquina acena-me longamente da traseira de um automóvel, um velhote sevilhano vem comigo ao outro lado da cidade, um austríaco em suspensórios deseja-me boa viagem, um pastor nos campos alentejanos de Ferreira cumprimenta-me de braço esticado.


Ao viajar de moto cumulo poder. Não para usurpar dos lugares ou hierarquizar relações, mas para desfrutar do espaço e me aproximar dos outros, para me associar à natureza e à cultura.


Viajar de moto é um pedaço de vida."

Carlos em Marrocos na companhia de Paulo Mafra

autores do livro "Viajar de moto, Destino Europa"